quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Cézanne e o espaço plástico



Cézanne e a superfície do quadro e o plano (a atmosfera) a sua frente. 

 Frases de Cézanne:

“Tratar a natureza através do cone, da esfera e do cilindro, [...].”
“Os corpos na natureza são todos convexos”
“Entre o objeto e o pintor se interpõe um plano, a atmosfera.” 
“A Natureza é mais em profundidade que em superfície.”
“Quero chegar a perspectiva unicamente pelas cores.”
Frases de Braque:
“Não é o bastante fazer ver o que se pinta, é preciso ainda fazer tocar.”
“O espaço visual. O espaço tátil. O espaço manual.”

Desdobramento

Percebemos uma superfície não em duas dimensões, mas em três, sendo que a terceira é dada  pela distância entre o observador e essa superfície. Na medida em que se aproxima dessa superfície, mais presente vai se formando a necessidade de tocá-la, ou seja, mais o tátil se manifestando.  Mais próximo ainda, chega-se ao espaço manual. Isso nos remete ao que Poussin afirma sobre as diversas distâncias quando nosso olhar é prospectivo.  Essas  distâncias demonstram que quanto mais afastado o observador estiver, mas o espaço é visual. Com a aproximação chega ao espaço manual passando pelo espaço tátil.  










Se compararmos os dois quadros de Cézanne com um de VanGogh podemos perceber que o espaço plástico cezanneano acontece à frente do quadro, e nesta atmosfera a que ele se referia, enquanto que em Van Gogh o espaço acontece além da superficie do suporte como ilusão. Cézanne rompe com o conceito do espaço plástico proposto por Alberti. 
Creio que isso pode nos levar a uma investigação mais profunda das descobertas cezanneanas, inclusive para entendermos os valores hápticos que são uma das propostas destas observações.
O que temos que investigar de início: o que ocorre neste plano que se interpões entre o modelo e o pintor? Mas se deve anotar que Cézanne conseguiu chegar a esse olhar pesrpectivo unicamente pelas cores. E um olhar, nesses últimos quadro, já totalmente desligado de quaisquer resquícios da perspectiva renescentista. 
Aqui um parêntesis. Na geometria euclidiana os sólidos geométricos são acromáticos, portanto, abstrações, uma vez que na natureza, segundo Cézanne, tudo está colorido.  E mais ainda. Para ele  cor e forma são uma só coisa. Daí ter dito que “quanto mais a cor se harmoniza, mais a forma se precisa.”
Se observarmos esses dois quadros de Cézanne, realizados em sua maturidade. Veremos que o espaço plástico de manifesta como uma superfície com vários acidentes sobre o plano do suporte projetando-o para frente, vindo a coincidir com este no qual nos orientamos.  Como as cores são concretas adjetivas, têm uma dimensão temporal, surgem pequenas superfícies ora cônicas, ora cilindrícas, ora esféricas (uma das formas das pequenas sensações?), pequenas superfícies  em constante transformaões.  Como estamos de tal forma condicionados a pensarmos no espaço a partir daqueles sólidos geométricos, temos que fazer um certo esforço para percebermos a como Cézanne rompeu com padrões culturalmente internalizados em nossos espíritos.
Para melhor percebermos o que tento mostrar, podemos comparar esses quadros de Cézanne com a paisagem de Van Gogh. No quadro deste o espaço plástico está ainda alem da superfície do suporte,  e nelas uma série de acidentes mas sem uma dimensão temporal. Tai8s fenômenos não se dão às explicações racionais e ao discurso verbal – pertencem unicamente ao pensamento plástico.
Estas anotações, assim, ficam por aqui. Que o olho as faça perceptíveis, é o que pretendemos.

José Maria Dias da Cruz
Florianópolis, setembro de 2012 

domingo, 2 de setembro de 2012

Sobre um quadro de Rosane Franco



Sobre um quadro de Rosane Franco



Parece-me que há uma ordem no quadro pela organização que permite pensar no espaço através de elementos gráficos ou formas geométricas históricas do desenho considerando-se a tradição vasariana: triângulos, uma cruz, círculos, todos bem proporcionados. Há, portanto, uma ordem, que se contrasta com um processo de desordem do lado esquerdo. Temos, então, um processo dinâmico de organização, reorganização que permite um continum. Este metafórico: vida, morte e ressurreição.
Opondo-se a um tratamento que obedece à tradição vasariana que priorizava o desenho há várias estruturas cromáticas: à direita, ao alto, uma unidade cromática baseada no rosa e seu oposto, um verde amarelado e uns vermelhos. Esta permite a passagem para outra unidade cromática, abaixo à direita, na qual dominam vermelhos com seus rompimentos. Do lado esquerdo, em conseqüência dessas duas unidades, outra unidade cromática com azuis e seus rompimentos em uma gama bem extensa. Há ainda os claros e escuros. 
Percebemos, entre outras coisas, uma dinâmica entre o gráfico e o pictórico, o primeiro entendido como mais formal e o segundo mais cromático
 O curioso é que me parece que com essa estratégia o conflito entre o masculino e o feminino se evidencia dentro da lógica do terceiro excluído. Mas Rosane Franco vai além. Há uma dinâmica na qual estão presentes, simultaneamente, momentos de harmonia e desarmonia, considerando-se esses dois conceitos como interdependentes. Rosane caminha para considerar harmonia e desarmonia uma só coisa em si dinâmica. Com isso abandona as certezas, os valores absolutos e nos leva a refletir sobre a lógica do terceiro incluído. O terceiro termo é a inclusão do cinza sempiterna que se dá no tempo. Isto é, a inclusão de um terceiro termo sem ferir o axioma da não contradição.
 O que está em jogo, entretanto, não é somente o que acima está dito. É, sobretudo, toda uma complexidade que se ilumina com um raio poético e nos leva a pensar no enigma.

José Maria Dias da Cruz                                                                                           Florianópolis, fevereiro de 2012.



Sobre um quadro de Rosane Franco



Parece-me que há uma ordem no quadro pela organização que permite pensar no espaço através de elementos gráficos ou formas geométricas históricas do desenho considerando-se a tradição vasariana: triângulos, uma cruz, círculos, todos bem proporcionados. Há, portanto, uma ordem, que se contrasta com um processo de desordem do lado esquerdo. Temos, então, um processo dinâmico de organização, reorganização que permite um continum. Este metafórico: vida, morte e ressurreição.
Opondo-se a um tratamento que obedece à tradição vasariana que priorizava o desenho há várias estruturas cromáticas: à direita, ao alto, uma unidade cromática baseada no rosa e seu oposto, um verde amarelado e uns vermelhos. Esta permite a passagem para outra unidade cromática, abaixo à direita, na qual dominam vermelhos com seus rompimentos. Do lado esquerdo, em conseqüência dessas duas unidades, outra unidade cromática com azuis e seus rompimentos em uma gama bem extensa. Há ainda os claros e escuros. 
Percebemos, entre outras coisas, uma dinâmica entre o gráfico e o pictórico, o primeiro entendido como mais formal e o segundo mais cromático
 O curioso é que me parece que com essa estratégia o conflito entre o masculino e o feminino se evidencia dentro da lógica do terceiro excluído. Mas Rosane Franco vai além. Há uma dinâmica na qual estão presentes, simultaneamente, momentos de harmonia e desarmonia, considerando-se esses dois conceitos como interdependentes. Rosane caminha para considerar harmonia e desarmonia uma só coisa em si dinâmica. Com isso abandona as certezas, os valores absolutos e nos leva a refletir sobre a lógica do terceiro incluído. O terceiro termo é a inclusão do cinza sempiterna que se dá no tempo. Isto é, a inclusão de um terceiro termo sem ferir o axioma da não contradição.
 O que está em jogo, entretanto, não é somente o que acima está dito. É, sobretudo, toda uma complexidade que se ilumina com um raio poético e nos leva a pensar no enigma.

José Maria Dias da Cruz                                                                                           Florianópolis, fevereiro de 2012.

domingo, 19 de agosto de 2012

Rilke - Trecho das carta a um poeta

Rilke – um trecho das "Cartas a um jovem poeta"


Por isso, que fique registrado aqui, desde logo, um pedido meu: leia o mínimo possível textos críticos e estéticos – ou são considerações parciais, petrificadas, que se tornaram destituídas de sentido em sua rigidez sem vida, ou são hábeis jogos de palavras, nos quais hoje uma visão sai vitoriosa, amanhã predomina a contrária. Obras de arte são de uma solidão infinita, e nada pode passar tão longe de alcançá-las quanto a crítica. Apenas o amor pode compreendê-las, conservá-las e ser justo em relação a elas. Dê razão sempre a si mesmo e a seu sentimento, diante de qualquer discussão, debate e introdução; se o senhor estiver errado, o crescimento natural de sua vida íntima o levará lentamente, com o tempo, a outros conhecimentos. Permita a suas avaliações seguir o desenvolvimento próprio, tranquilo e sem perturbação, algo que, como todo avanço, precisa vir de dentro e não pode ser forçado nem apressado por nada. Tudo está em deixar amadurecer e então dar à luz. Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, em um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação.
Não há nenhuma medida de tempo nesse caso, um ano de nada vale, e mesmo dez anos não são nada. Ser artista significa: não calcular nem contar.

sábado, 18 de agosto de 2012

Políptico - óleo sobre tela - 1994 - 45x55 cada - Museu de Arte Moderna de Canta Catarina


Natureza morta - Óleo sobre tela - 73x60cm - 1994


O Cinza sempiterno


O Cinza sempiterno
Se misturarmos as cores primárias e secundárias segundo a teoria cromática a partir do espectro da luz, com todas em um mesmo valor, obteremos um cinza. Mas Cézanne se refere a um cinza que reina na natureza dificílimo de alcançar. Portanto um cinza não resultante de misturas pigmentares.  Mas podemos partir da experiência acima para didaticamente entendermos o cinza sempiterno.  Assim como esse cinza obtido por misturas pigmentares, o cinza sempiterno contém também todas as cores de um colorido. Daí podermos dizer que as cores são enigmáticas.  Pela experiência do rompimento do tom, considerado agora como a variação dele quando há nele a sobreposição da pós- imagem e assim acinzentando-o, e não por misturas pigmentares como é definido pela teoria cromática tradicional, podemos observar que quanto maior for o tempo de observação, mais um tom se rompe. Assim se observarmos os rompimentos daquelas cores primárias e secundárias veremos que todas se romperem.  Entretanto fisiologicamente não atingimos nunca o cinza sempiterno, daí Rilke ter afirmado que ele não existe.  Mas podemos logicamente afirmar que todas se dirigem para um ponto potencialmente ativo e sem nenhuma dimensão, o cinza sempiterno. Fazemos, então, uma analogia com as misturas pigmentares descrito acima. Se colocarmos ao lado desse cinza um tom avermelhado ele se tornará esverdeado; ao lado de um azulado levemente violáceo, amarelado; ao lado de um violáceo, amarelado levemente esverdeado; e assim em diante. Temos nesse caso também um exemplo de interação cromática, isto é, as cores se modificando segundo o contraste. Vários pintores coloristas afirmam que pintar é contrastar. Se colocarmos ao lado daquele cinza obtido por misturas pigmentares um tom avermelhado ele , o cinza, se tornará esverdeado; ao lado de um azulado levemente violáceo, amarelado; ao lado de um violáceo, amarelado levemente esverdeado; e assim em diante. Temos nesse caso também um exemplo de interação cromática, isto é, as cores se modificando segundo o contraste. Vários pintores coloristas afirmam que pintar é contrastar. Assim poderemos dizer que quando as cores partem do cinza sempiterno ganham cromaticidade e têm um movimento excêntrico em relação ao cinza sempiterno. Como todas as cores se rompem ininterruptamente um movimento neste caso é concêntrico.
Assim o cinza sempiterno manifesta-se na natureza como uma atmosfera que se interpõe entre o pintor e o modelo segundo Cézanne.