terça-feira, 3 de julho de 2012

Email para Guilherme Bueno


Guilherme Bueno

Como vc está? Imagino, como sempre, abarrotado de trabalho. Assim como eu, pois além daquelas obrigações com a sobrevivência, bicudas nos dias de hoje, temos essas perguntas que não dão descanso as nossas cabeças. Está uma obsessão o que venho pensando sobre uma geometria das cores e parece que a cada passo que dou pra frente, tantas dúvidas aparecem que nem sinto que há um avanço. Parece até mesmo um recuo. Ao menos consegui entender um pouco melhor a frase do Leonardo sobre o serpenteamento. Assim o cinza sempiterno seria, dentro do que penso, o correspondente ao ponto, este potencialmente ativo. O serpenteamento corresponderia à linha. Ambos construiriam um espaço com várias dimensões, pois há que se considerar o rompimento do tom que tem uma dimensão temporal. O caroço vem de um verso do Michael Palmer: "As diversas distâncias entre olho e pálpebra." Há, portanto, as cores abstratas substantivas e coladas a elas os valores hápticos e tácteis.

Estou pintando um politípico (oito quadros que ainda não foram fotografados). O suporte é madeira, aquelas tábuas de pinho para obras. São diversos os comprimentos, de 40cm a 60cm, e a altura uma só, 30cm. Não tratei a madeira. Deixei-a crua, com as marcas dos veios e das nódoas. Em uma parte pintei um colorido no qual se manifesta o cinza sempiterno. Na outra uma cor, um rosa, por exemplo, não me importando em relacionar as duas pelos princípios de proporcionalidade que se dá às formas, ou seja, aqueles princípios vasarianos. Lidei, portanto com os valores tácteis do suporte, que fica bem evidente que é um pedaço de uma tábua. Apesar de pintadas vê-se que é madeira não tratada para outro fim senão o de servir para armação de concretagem em obras de construção. A pintura em rosa não vela os veios e as nódoas. As laterais ficaram só na madeira, bem visível. Assim ficam evidente os valores tácteis da tábua. Mas a cor pintada chapada nos leva ao conceito de cor abstrata substantiva, em apenas duas dimensões, e assim os valores hápticos se manifestam.

Isso está me levando a pensar em outra coisa. Parece que estou desenvolvendo um pensamento, além de plástico, mais diagramático e menos analógico. Andei lendo um livro do Deleuze sobre o Bacon que expões bem essas questões. Entretanto quando ele se refere a Cézanne sempre fico questionando. Há coisas que para mim se tornam tão confusas! Por exemplo, nesse livro que li do Deleuze, "Francis Bacon, lógica da sensação". Veja, ele diz " A luz é o tempo, mas o espaço é a cor." Para mim a cor, pelo rompimento e pelo cinza sempiterno é tempo também. Continua o autor. "O colorismo pretende extrair um sentido particular da visão: uma visão háptica da cor-espaço diferente da visão ótica da luz-tempo." Fica difícil para mim, face à primeira frase citada, uma compreensão clara em relação a essa, muito embora considere importante a discussão  do táctil e do háptico.

E há uma terceira frase. "A modulação por toques distintos puros (o grifo é meu), e segundo a ordem do espectro, foi a invenção propriamente cezanneana para atingir o sentido háptico da cor."

Primeiro não acredito em uma pureza com esse sentido absoluto. Segundo, se falar em ordem do espectro quando Cézanne afirmou que a luz não existe para o pintor! E além do mais ignorar o que Cézanne disse que somente o cinza reina na natureza. Enfim, vou me virando. Basta ver uma montanha que segue anexo. Repare que no corpo da montanha há uma escala que vai, em forma de um arco, de um azulado até um alaranjado passando pelo cinza sempiterno. Além do azul, por afinidade, Cézanne utiliza de um tom verde. Essa é a escala básica do quadro, que resulta em diversas variações dessas escalas diagramáticas e que em nada se aproxima da ordem das cores no espectro. 

Não sei se estou sendo claro, escrevendo sem mostrar graficamente o que penso. Estou anexando também um desenho onde mostro um diagrama cromático com seu específico cinza sempiterno. Desde cinza mostro uma outra escala que vai de um violeta escuro a um amarelo esverdeado claro que não pertence ao círculo diagramático acima. A essa escala posso acrescentar por aproximação ao violeta um azul. É um esquema cezanneano. Ele diz que pinta sempre uma secção do espaço, o que podemos entender como uma secção de um colorido maior uma vez que temos nossos limites, vale dizer, nos é interditado um colorido total. E nisso há um enigma.


Estou sendo claro? A complexidade advém do fato de que cada intervalo dessas escalas ter seus respectivos cinzas sempiternos com uma dimensão temporal. É por isso que Cézanne dizia que somente um cinza reina na natureza. Creio que não podemos visualizar toda essa complexidade, salvo se nos apoiarmos na generalização que nos permitem os diagramas.   

Segue uma assemblage de minha autoria realizada em 2007.








segunda-feira, 2 de julho de 2012

Troca de e-mails entre José Maria Dias da Cruz e Orlando Mollica








Muito bons esses seus novos trrabalhos e tabem bom o texto do Bob.

De minha pate vi quadros repletos de estórias que se enriquecem e ganham peso na medida em que são também ricos em referências da história das artes. Vc, ciente das possibilidades da pintura na contemporaneidade, enfrenta o peso da tradiçao remodelando-a no sentido de poder responder a seguinte pergunta: O que é um quadro hoje? Sim, estão claras as fontes tanto referentes ao impressionismo e pós, como aos expressionistas alemães e até mesmo o Grito de Munch, assim como estão claras as lembranças de artistas brasileiros como a nossa querida Georgina de Albuquerque com seus amarelos e azuis plenos de uma luz tropical como tambem de Martinho de Haro com seus pequenos toques duros precisos. São os valores hápticos que vc tão bem explora.

Pobre daqueles que não têm olhos para esse dois artistas. Jamais compreenderão a profundidades de seu trabalho. Tenho absoluta certeza de que isso que estou falando não é uma impressão minha, mas questões que você mesmo têm na base de seus estudos e observações. Tremo de emoção só ao pensar que este tributo a esses dois artistas que citei e outros mais que são objetos de sua preocupações dá a seus quadros um significado que te coloca em uma posição impar na história da arte brasileira contemporânea.

Impressionante como são barulhentos esses seus novos trabalhos!

Valeu Mollica, vá em frente. Estas foram as primeiras impressões. É muita coisa!

Um forte abraço do
JM







Fiquei muito emocionado com seu e-mail. Você nunca foi tão simples e direto colocando os adjetivos e os elogios sob a luz do sol.
Que bom que somos amigos! Para mim isso é um grande privilégio.
Não sei o que você acha dele, mas andei vendo mais detalhadamente alguns quadros, sobretudo as paisagens delirantes, do Manoel Santiago. Ele mostrou ser um verdadeiro amazonense e não pediu licença pra ninguém para fazer as muitas mudanças, algumas das quais temerárias em sua pintura. Falamos em Georgina e Martinho de Haro, mas não posso deixar de fazer esse destaque. 

Assim como Santiago, Georgina, Haro, de certa maneira Eliseu Visconti, mesmo Pancetti e Guignard, o Brasil se deu ao luxo de varrê-los para debaixo do tapete da história da arte do século XX para destacar a mediocridade das Tarsilas e Sacilottos da vida.

Agora piorou. Temos como artistas de proa Romero Britto e Vik Muniz, sem mencionar a grande dama da nossa pintura contemporânea, graciosa cabrocha de Paraty que está embrulhando lojas, edifícios, sacolas, embrulhos, mundo afora, e vendendo quadros acima de 1 milhão de dólares. Durma-se com um barulho desse.

Depois me conta mais do seus planos de mudança para Ouro Preto. Já combinei com o Bob e seremos os primeiros a incomodá-lo com a nossa visita.

Grande abraço do amigo emocionado,

Mollica.

Este texto é o resultado de conversas que mantive durante uma semana com Elaine Pauvolid, Paula Laranjeira e Orlando Mollica sobre um quadro de Delacroix que eu denomino A Lagosta. Portanto eles são co-autores.

Quem visita o Louvre encontra em uma das principais alas alguns quadros de Delacroix, entre eles um bastante citado por historiadores, críticos, etc., o quadro intitulado A Liberdade Guiando o Povo. Mas em outra ala, bem menor, vai se deparar com o quadro A Lagosta, pintura para pintores, infelizmente pouco conhecido e estudado. Esse quadro é fortíssimo. A vida e morte é o seu tema. Troquei algumas idéias com as amigas Elaine Pauvolid e Paula Laranjeira. Os comentários foram tão ricos que resolvi mostrar o quadro em meu blog para quem quiser estudá-lo possa fazê-lo.






Este texto é o resultado de conversas que mantive durante uma semana com Elaine Pauvolid, Paula Laranjeira e Orlando Mollica sobre um quadro de Delacroix que eu denomino A Lagosta. Portanto eles são co-autores.

Nesse quadro de Delacroix há uma discussão bem complexa sobre a vida e a morte, e o curioso é que a morte, está representada pelos animais em primeiro plano: as lagostas, a lebre e os pássaros pintados em "cores vivas", menos um réptil anfíbio, uma salamandra, que esta viva. E a salamandra é um ser mítico que está bem presente no imaginário de alguns povos. No lado direito, abaixo, há um plano, com uma mancha escura acima, que pode ser um muro, e nosso olhar não consegue ir além dele. No lado esquerdo, em contraponto, há um outro espaço, este com linhas inclinadas, como se esboçasse um caminho que nos possibilitasse chegar ao segundo plano onde se nota, em tons mais brandos, bem distantes, uns cavaleiros, portanto, uma representação de coisas vivas. Curioso esse contraste. Há ainda as questões cromáticas. Predomina um contraste alaranjado-violáceo que potencializado faz surgir um esverdeado, e isso era teorizado pelo pintor que afirmava que na natureza tudo se resumia ao acorde laranja, verde e violeta. Repare que os esverdeados no quadro, menos evidentes, estão todos rompidos. Ganham alguma evidência induzidos pelos alaranjados e violáceos. Portanto o colorido se afirma e acaba, assim, dialogando com as formas e daí enfatiza o narrativo, mas deixando-o subordinado à plasticidade. Delacroix, me parece, nos aponta para o enigmático e, como já disse, nos faz pensar na nossa própria condição, ou no miserere, isto é, na imperfeição própria dos homens. Por isso que digo que é uma pintura para pintores. Curioso é se constatar que um dos quadros mais comentados e reproduzidos de Delacroix seja A Liberdade Guiando o Povo. Logo depois o pintor, desencantado, se refugia em seu atelier onde nunca mais pintou quadros panfletários.
Para terminar seguem umas frases retiradas de um e-mail que me foi enviado pelo artista plástico Orlando Mollica:

"É a forma romântica de se expressar ante a uma realidade política de esfacelamento social: uma Revolução que prometia tudo e que acabou muito mal.

Esse anti-climax que rolou no começo do século XIX e provocou, ou melhor, acirrou o ânimo dos românticos, abasteceu fortemente a criatividade desses artistas. Com Delacroix não foi diferente.

Mas, a bem da verdade, com o capitalismo ainda e cada vez mais forte e impiedoso, vide crise européia, USA, Oriente Médio, África, os milhões de miseráveis e desempregados espalhados desde o primeiro ao último mundo, e o planeta batendo pino, a atualidade de visões céticas e sinistras como a de Delacriox ainda são muito atuais."
José Maria Dias da Cruz
Abril - 2011

Ver e ouvir - Philip Glass


Ver e ouvir – Philip Glass

(Esses textos -  tenho outros - são desenvolvimentos naturais de minhas notações, desde os tempos dos Formulários até os desenhos mais recentes. Com isso posso me colocar como artista marginal, conforme definido por Sergio Milliet em seu livro Marginalidade no Modernismo. A questão pode ir mais longe face à frase bem conhecida: a arte imita a vida, e faz desta arte um fenômeno cultural, segundo pensava Eliot.)
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Ver e ouvir


Há dias venho escavando meus pensamentos, e uma frase surgiu de
repente, pronta.
Estou cansado de ficar cansado - oh dias atribulados de tantos vazios
- hoje o dia foi de expectativa, e o sol nasceu e se pôs, e entre o
nascente e poente choveu como uma lágrima que escorresse do céu.
Mandei-a a minha amiga Cristina Pape e recebi uma resposta animadora.

"Oi Ze Maria, frases poéticas são reflexos em poças d'água.
Pulamos algumas, pisamos em outras e sempre elas são gotas concentradas."

Lembrei-me de Redon que diz que devemos evitar o literário em pintura,
a não ser que seja um poema. Lembrei-me de Leonardo também. Da questão
do serpenteamento. Este se refere aos limites de qualquer corpo e o
modo como serpenteiam. Frase instigante, então dentro de um limite há
outro que serpenteia? Põe assim em discussão o contorno dos objetos.
Cézanne mais tarde vai dizer que as linhas não existem em absoluto,
são abstrações,.e que na natureza tudo está colorido. Diz mais ainda,
devemos ver a natureza como ninguém a viu antes.

Ficamos, então, face a face de uma série de enigmas. Sentimo-nos que a
arte é como um vôo de um pássaro. Como aquele pintado por Braque no teto de uma ala do Louvre.

Ou então, ao Eclesiastes.

O fato é que estava ouvindo uma música de Phiplip Glass e vendo as
imagens. O serpenteamento se manifestou. E alguma coisa que nunca
vimos antes e nem ouvimos, se fez presente. Observe-se  bem. "O olho
não se farta de ver, nem o ouvido se cansa de ouvir." Está assim dito
no Eclesiastes. E em cada coisa que se vê, e em cada coisa que se ouve, tudo
é simples. Impressionante como as fotos são despretensiosas. Vemo-las
como se estivéssemos acordando, e tudo se parece, no início, como
imagens com uma estética desconhecida, únicas, que não se nos dão ao
diálogo, pois que sem seus respectivos complementos. Como nos diz Raul
de Leone. "Eu era uma alma fácil e macia, claro e sereno espelho
matinal." Do sol que nasce e se põe e que torna a nascer. A vida se
desenha. Da rosa vermelha da manhã (nela tudo é vaidade?), à outra,
abandonada e murcha em uma banqueta à tarde. O amor profano que se
acabou? Pelo amor sagrado as joaninhas se reproduzem. Os gaviões
espreitam, o gato olha a ave sobre os ovos coloridos, uma mão oferta
uma borboleta morta e, em outro momento, em um dedo como um trampolim,
a borboleta se prepara para seu novo vôo. Uma mão se estende - pedindo
ajuda? Há a estrada gelada e há a cerca que permite uma passagem.
Vêm-se as marcas dos pneus, e a imagem do carro, sujo, desconfortável,
tão anticomercial! Do pé ao pneu passando pelo sapato. E é Braque quem
nos diz; “O conceito obnubila. Foi somente após profundas meditações
que o homem bebeu do vazio de suas mãos. (Da mão ao copo passando pela
concha). Aqui é bem mais uma metamorfose que uma metáfora." O tempo
passa como um rio. De repente uma outra imagem, uma estrela-coração? "Há tempo de guerra e tempo de paz." As cores se multiplicam. Os galhos secam, como em certos quadros de Mondrian, uma desordem que antecede à ordem, (e depois florescem,
gráficas e improvisadas, em ritmo de jazz). Há as inúteis máscaras,
como as que nos cantou Dante Milano: "Até que a terra, com sua garra,
nos rasgue a máscara." É o vício de viver? Das uvas ao vinho que
embriaga, das papoulas ao ópio, como nos versos de Baudelaire. "O ópio
dilata o que contornos não têm mais, aprofunda o ilimitado, alonga o
tempo, escava a volúpia e o pecado, e de prazeres sensuais enche a
alma para além do que conter lhe é dado." É tudo vaidade. A flor
amarela prenuncia a morte, a as ferragens violáceas um fim e um
recomeço. O cinza sempiterno se manifesta na natureza e nos expõe o
enigma, este que só um espírito sagaz nele se embriaga, mas pela
metade apenas, tentando compreendê-lo. Curiosa uma foto de uma moça em
frente ao espelho e nele mal se vê o fotógrafo. Van Eyck revisitado?
"O que é o que foi? O mesmo que há de ser. Que é que se fez? O mesmo
que se há de fazer. Não há nada de novo debaixo do sol e ninguém pode
dizer: Eis aqui está uma coisa nova, porque ela já existiu nos séculos
que passaram antes de nós. Não há memória das coisas antigas, mas
também não haverá memória  das coisas que hão de suceder depois de nós
entre aqueles que viverão mais tarde." O que pertence também ao
Eclesiastes .

Mas uma pergunta persiste. A arte, como disse Cézanne, é uma
religião? E Deus, é nosso direito?  "Vem, pois, agora, rogo-te..."
(Números, 22-6). "Vai,vai, vai, disse o pássaro, o homem não suporta
tanta realidade." T.S.Eliot.

Ouçam e vejam. Percebam as histórias infinitas que a música e as
imagens nos contam. Depois me respondam.

http://www.youtube.com/watch?v=uHn8L3dYMLM&feature=related

Um adendo

Na sequência de fotos que acompanha a música do P G, na terceira ou quarta mostrada, tem um detalhe curioso. A foto mostra dois círculos: um bem azulado, outro, menos. Por ele pensamos no cinza sempiterno. Veja, Leonardo diz que o azul tanto pode ser uma cor simples como composta. No segundo caso seria composta de luzes, ou de brancos para as luzes, e de sombras, ou de pretos para as sombras. Este azul pode estar no intervalo entre um branco como cor e de seu oposto, um preto.  O mesmo intervalo para as demais cores e suas respectivas opostas. O cinza sempiterno como um pré ou pós fenômeno.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Voar Parado - óleo sobre tela - 46x38cm










Na Morte de Marques Rebelo


Fuzilar o gesto no vôo;
mas oue o gesto assim fuzilado
prossiga no seu vôo vivo
e conserve vivo seu pássaro.


Fuzilar o gesto de jeito
que aquele vôo assim cortado
não se corte num instatâneo;
mas que continue a voar parado

Continue a se fazer
a se voar com todo espaço;
conserve o gesto e o pulso de ante
e não morra, embora caçado.

João Cabral de Melo Neto